Montenegro, do WTC: otimismo para crescer

Para Luciano Montenegro, CEO do World Trade Center em São Paulo, o Brasil é uma oportunidade única de negócios para investidores internacionais. E a crise não é desculpa para parar de crescer.

No salão do restaurante Barbacoa, dentro de um importante complexo empresarial paulistano, as mesas foram sendo tomadas rapidamente tão logo o relógio passou das 12h30. O lugar é conhecido por seu steak ao ponto e por reunir boa parte do empresariado que atua na região da Berrini (Avenida Luís Carlos Berrini, importante corredor de empresas na zona sul paulistana). A despeito da crise, aliás, o lugar ficou cheio em questão de minutos. Dentre os que chegavam para ocupar seu lugar à mesa estava Luciano Montenegro, CEO do World Trade Center, um jovem executivo que lidera a operação brasileira de um dos maiores centros geradores de negócios do mundo. Ele é o player entrevistado por Business Luxo.
Vindo da Câmara Americana de Comércio, onde esteve por 15 anos, Luciano está desde 2012 no comando do WTC em São Paulo. Sob seu mando estão cinco unidades de negócio que formam o complexo: a torre de escritórios com 40 empresas, o hotel operado pelo Sheraton, um centro de convenções, o shopping D&D – reconhecido nacionalmente pelo perfil ligado ao design e ao segmento mobiliário – e um clube de negócios que conecta 1.200 empresas cadastradas. “Até a China está copiando este modelo de clube que eu desenvolvi quando vim para cá”, comenta ele, sem falsa modéstia.
Luciano é daqueles executivos que prefere fazer algo diferente a ficar reclamando da crise. Enxerga no momento instável uma oportunidade e tenta passar esta mensagem positiva à sua equipe (cerca de 300  funcionários diretos) e seus parceiros de negócios. Em 2015, ele viu sua operação no shopping ganhar 15 lojas novas. No clube de negócios, foram 17 missões comerciais estrangeiras em 12 meses. Mas, no entanto, a ocupação dos escritórios caiu de 96% para 85% ao final do período. “Mas não por culpa da crise na economia: foi excesso de oferta na região”, diz.
À frente de um complexo que recebe 15 mil pessoas diariamente, ele busca inovar com parcerias. A mais recente foi com a marca de carros japonesa Subaru. No saguão, além da exposição dos veículos, o interessado poderia marcar um test drive e, se gostasse do modelo, já sair com as chaves. Para falar desta e de outras estratégias, Luciano fala a Business Luxo à seguir:

Luciano Montenegro

Luciano Montenegro, CEO do WTC

Business Luxo: E a crise, Luciano?
Luciano Montenegro: Olha, nós podemos enxergar o copo meio cheio ou meio vazio. Em 2015, um ano de baixa, nós tivemos uma readequação do mix de lojas aqui do D&D, por exemplo, e 15 novas lojas entraram – em 100. No final do ano, tivemos crescimento no shopping de 1% no faturamento junto ao consumidor final, e de mais de 7% em vendas aos arquitetos. O clube de negócios cresceu 30% em resultados. O que sofreu mesmo foi a torre de escritórios, que viu a ocupação cair de 96% para 85% em dezembro de 2015. Mas não foi culpa da economia.

B|Luxo: Qual o motivo, então?
Montenegro: O motivo foi que a quantidade de lajes corporativas na região cresceu muito. Este excesso de oferta foi fruto de uma estratégia das construtoras e incorporadoras que, com o caixa cheio por conta do dinheiro de IPOs, precisavam lançar produtos. Foi isso que fez com que nossa ocupação fosse alterada.

B|Luxo: E qual a estratégia para reverter isso?
Montenegro: O diferencial para recuperar mercado é o próprio perfil do nosso empreendimento. Temos uma torre de escritórios colada a um shopping, a um hotel e a um centro de eventos. Não tem nenhum empreendimento corporativo com essas características no Brasil – nem na América do Sul. Recebemos muitas missões comerciais também, foram 17 no ano passado, gerando negócios para quem faz parte do clube. Fora que aqui você faz tudo no mesmo lugar, não tem de sair nem para almoçar. E até quando você precisa esticar o expediente e sair muito tarde, dá para ligar no hotel e reservar uma suíte de graça se houver disponibilidade. Qual prédio de escritório ou shopping tem este benefício?

B|Luxo: Criar estas facilidades é algo que valoriza o seu negócio, sem dúvida.
Montenegro: Qual é o nosso business? Aluguel de metro quadrado. A gente aluga quarto de hotel, espaço de loja, escritórios e área de eventos. E o que valoriza um espaço para locação? Conteúdo, que gera fluxo de pessoas. Promover ações e eventos que façam com que as pessoas façam tudo aqui dentro. Lançamentos de produtos, por exemplo, como a parceria que fizemos com a Subaru, é maravilhoso! Nós temos, por exemplo, uma oficina mecânica, na garagem do subsolo e você pode arrumar o carro enquanto almoça aqui. Temos de criar essas facilidades para que as pessoas ganhem tempo.

B|Luxo: Fazendo uma análise mais macro, como os investidores de real estate internacionais têm visto o Brasil recente? O noticiário não anda lá muito positivo.
Montenegro: As notícias assustam no curto prazo, mas o que mais assusta a um investidor como este não é isso, nem a burocracia, nem a pesada carga tributária. O pior problema é a mudança nas regras do jogo, que o obrigue a mudar sem plano de negócios.

B|Luxo: E o que eles enxergam no longo prazo?
Montenegro: Na visão destes investidores imobiliários estrangeiros que já atuam aqui e passaram por outros ciclos como este, é preciso olhar para o futuro. Não se constrói um prédio para seis meses, mas para uma vida toda. Quem mapeia o mundo todo sabe que o destino com maior potencial de negócios hoje é a América Latina e, em especial, o Brasil. Qual lugar na região tem uma população e um público consumidor com o tamanho que temos em nosso país? Não tem!

B|Luxo: E São Paulo ainda é o destino preferencial destes investidores?
Montenegro: Sim! Olha, quando o WTC foi fundado aqui há 20 anos, a região da Berrini tinha 2.040 empresas. Hoje tem 16 mil! Cresceu oito vezes o número de companhias só aqui na região. Imagina o potencial de negócios. Em qual lugar do mundo você pode visitar 16 mil empresas à pé como aqui na Berrini?

Complexo do WTC compreende uma torre de escritórios, hotel, shopping e centro de convenções, na zona sul de São Paulo

Complexo do WTC compreende uma torre de escritórios, hotel, shopping e centro de convenções

B|Luxo: Você administra um hotel business de alto padrão, operado pela bandeira Sheraton, e um shopping identificado com o público das classes A/B. Como avalia o mercado de luxo brasileiro?
Montenegro: Acho que é um mercado que não tem alternativa: vai crescer. Cada vez mais as pessoas que experimentam o luxo, não voltam atrás. Luxo é qualidade, sofisticação e prestação de serviços com excelência. As pessoas vão percebendo que comprar um item de luxo é, muitas vezes, gastar menos, se pensar no longo prazo. É o famoso ‘o barato que sai caro’. Luxo é pensar em qualidade e na relação custo-benefício. Essa percepção da qualidade, do design, da historia por trás de um produto deste segmento vai demorar um pouco ainda para chegar na base. Mas vai chegar e, daí, não tem mais volta.

(De São Paulo)