A ilha da fantasia do turismo nacional

Um dos resorts mais antigos do Brasil, o Transamérica Comandatuba fecha o ano de 2016 com 17% de crescimento no caixa, mais de 50 eventos realizados e 94% de ocupação dos seus quartos no último Réveillon. Qual o segredo? Leia à seguir.

A entrevista começa com o diretor da rede de hoteis Transamérica, Heber Garrido, contando sobre um tal “número mágico”: a meta de crescimento alcançada por uma das mais antigas operações do portfólio do grupo: o Transamérica Comandatuba, ao sul da Bahia. O percentual de 17% a mais no faturamento impressiona, sobretudo em um ano de profunda crise na economia brasileira. Mas há outros números do hotel que saltam aos olhos: foram 56 eventos realizados em 12 meses, 84% de ocupação dos quartos na temporada de verão e quase 100% dos 360 apartamentos e bangalôs ocupados para a semana de Réveillon – período cujo pacote mais ‘econômico’ custava R$ 12 mil. Afinal, qual o segredo do sucesso desta ‘ilha da fantasia’ do turismo nacional?
Para entender o modelo que vem dando certo desde a inauguração do hotel, em 1990, Business Luxo conversou com o diretor em sua base, no Transamérica São Paulo. Bom de prosa, o mineiro Heber Garrido é bom de números e de gestão também. Sob sua supervisão, a unidade no litoral baiano, às margens do rio Una, cresce em faturamento ano após ano, ganha novos equipamentos corporativos, espaços de lazer e, por fim, agrega valor à marca. Já falando da rede como um todo, os lançamentos recentes, como no Guarujá (SP), e os futuros em Ribeirão Preto e Barretos, no interior paulista, mostram que o grupo permanece forte, mesmo diante de um cenário tão complicado.

Heber Garrido, diretor dos hotéis Transamérica

Na conversa à seguir, Garrido faz um balanço do único hotel de lazer da marca, avalia os percalços atuais do turismo nacional, comenta a lei que pode legalizar os jogos de azar e trazer de volta os cassinos para o Brasil, e projeta quais as possíveis vantagens futuras para a cidade de São Paulo por ter eleito um prefeito – João Dória (PSDB) –, um empresário exatamente do ramo de eventos de negócios. “Tem até uma brincadeira aí dizendo que ele vai despachar ou de seu shopping em Campos do Jordão (SP) ou de Comandatuba (risos). Vamos ver o que vai acontecer.”

Business Luxo – Que balanço faz do hotel Transamérica Comandatuba em 2016?
Héber Garrido – O número mágico foi de +17% no resultado. Lembre que o dólar caro ajudou no começo do ano. Na temporada de verão, batemos um recorde histórico: 84% de ocupação! Além disso, todos os segmentos do hotel cresceram, inclusive o corporativo. O departamento funcionou muito bem, com 56 eventos realizados. O espaço dedicado exclusivamente aos eventos, aliás, é parte da solução desde 2012, quando o inauguramos.

B|Luxo – E quanto ao Réveillon?
Garrido – Tivemos 94% de ocupação, algo muito fora da curva em se tratando de Nordeste brasileiro. E já estamos com o Réveillon de 2018 praticamente todo vendido.

B|Luxo – Qual o segredo deste sucesso todo?
Garrido – A nossa experiência para a família é completa: além de ter tudo incluso, nós acompanhamos o hóspede desde a fila do check in no aeroporto, no avião que é fretado até a chegada no hotel. A questão de segurança, antes mesmo dos serviços e da beleza natural do lugar, é fundamental para o nosso perfil de cliente. Ter um aeroporto exclusivo, a logística facilitada de despachar a mala em São Paulo e só pegá-la de volta já dentro do quarto, tudo isso agrega valor real ao destino.

O SPA do hotel retoma a parceria com a marca L’Occitane

B|Luxo – Como surpreender um hóspede cada vez mais exigente e informado em um equipamento com quase 30 anos de vida?
Garrido – Lançando novidades o tempo todo. Para este verão, estamos relançando a parceria com a L’Occitane no SPA do hotel. Inauguramos também o Comanda Games, um espaço para jogos eletrônicos de ultima geração – simuladores, de realidade virtual, estações para jogar em equipe – para atender aos jovens. Este local funcionará a partir do final da tarde, para não competir com a praia e a piscina, e não contará com jogos violentos. Além disso, já estamos em fase de aprovação de custos para uma completa reforma de todos os 360 quartos, um investimento de R$ 20 milhões.

B|Luxo – Quantos aos eventos, a crise dos últimos anos não impactou o hotel?
Garrido – Por ser um destino que envolve malha aérea e carece de agendamento prévio, ficamos blindados. Em Comandatuba, o segmento corporativo cresceu 14% em 2016. Nossos maiores clientes – bancos, laboratórios farmacêuticos e associações – continuaram ‘fechando a ilha’ para as suas convenções. No entanto, nos demais hoteis de negócios da rede, o resultado foi o mesmo de 2015, que já foi ruim. A situação ainda foi agravada por conta dos custos, que aumentaram.

B|Luxo: Um parênteses político: qual a avaliação que o senhor faz da eleição do empresário de eventos João Dória para a prefeitura de São Paulo?
Garrido – Estou muito otimista, mas cauteloso porque envolve orçamento, vereadores e a própria falta de experiência dele como gestor público. Como tivemos uma aproximação maior por conta dos eventos em Comandatuba e outros realizados, o que a gente percebe é que ele entende muito da nossa indústria – e do turismo de negócios mais ainda. E isso é São Paulo! É um cara que cresceu fazendo eventos, que foi presidente da Embratur, que tem trânsito. Eu quero acreditar que ele consiga acesso a mercados fora do País vendendo o destino São Paulo não só para investimentos, como também para a realização de grandes eventos. Tem até uma brincadeira aí dizendo que ele vai despachar ou de Campos do Jordão (onde Dória tem um shopping center e realiza eventos durante o inverno na serra paulista) ou de Comandatuba (risos). Vamos ver o que vai acontecer.

B|Luxo – Qual a sua análise sobre a Lei Geral dos Jogos de Azar (PLS 186/2014), em tramitação no Congresso Nacional?
Garrido – Estamos acompanhando bem de perto este assunto, Comandatuba tem interesse em entender melhor este modelo. O governo quer aumentar a arrecadação com essa tributação sobre o jogo (cerca de R$ 29 bilhões até 2020) e, para efeito de controle fiscal, teria sentido fazer em resorts. Com isso, tem muita gente de fora com interesse no assunto e sondando o Brasil. Temos sido muito procurado por players estrangeiros que tem interesse em comprar ativos aqui. Pessoal do Hard Rock de Las Vegas, investidores de Cingapura, já estiveram no hotel. Agora, quando a gente pergunta se investir em jogos fora de Vegas é bom negócio, o investidor internacional fica com um pé atrás. Ainda mais em tempos de Operação Lava Jato, já que um cassino pode ser uma torneira aberta para a lavagem de dinheiro.

B|Luxo – Fazer turismo no Brasil é um bom negócio?
Garrido – O turismo de lazer nacional ainda é muito impactado por custo. O operador hoteleiro hoje sofre muito com questões trabalhistas e tributárias. Olha o setor de cruzeiros: a oferta caiu pela metade! E não é que o mercado não quer comprar, é o custo da logística dos portos no País que inviabiliza. A armadora avalia os custos no Brasil, no Caribe e em outros mercados e não justifica manter os navios aqui – mesmo quando é baixa temporada lá fora. A oferta de malha aérea internacional caiu muito também, com menos poltronas disponíveis. Do ponto de vista da operação, tem sentido: é a companhia aérea tentando ganhar um dinheiro. Mas isso só dificulta o turismo.

(De São Paulo)