Gafisa cria assinatura de estilo

Construtora paulista investe agora em imóveis de alto padrão e cria portfólio exclusivo para atender a uma demanda que insiste em resistir mesmo em tempos de crise.

Em meio a crise no setor imobiliário brasileiro – com a perda de renda da classe média, os juros altos e o acesso ao crédito mais difícil –, que se arrasta desde 2014, muitas construtoras e incorporadoras do País têm adotado estratégias inovadoras para ganhar fôlego enquanto a estabilidade econômica não vem. No caso da Gafisa, empresa fundada em 1954, a saída foi para cima. No primeiro semestre de 2016, a companhia lançou o Gafisa Signature, um portfólio de empreendimentos exclusivos que mira o comprador de alta renda, mais ‘blindado’ em seu poder de compra. Com projetos que se destacam pelo design e pela localização privilegiada na cidade de São Paulo, o novo selo quer ser reconhecido no curto prazo como uma referencia de qualidade no mercado.
“A ideia como um todo é que a Gafisa está se vendo como uma construtora e incorporadora muito tradicional e com força suficiente para entregar produtos deste nível. Tudo para atender um público novo e muito mais exigente”, disse Octávio Marques Flores, diretor Executivo de Negócios da empresa.
Este ano, o selo Signature lançou no mercado o MN15, uma torre com 15 apartamentos apenas em um terreno com vista privilegiada do Parque do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. Com varandas independentes e todas com jardins suspensos e diferentes entre si, o projeto – assinado pelo escritório Konigsberg Vanucci e com interiores da arquiteta Zize Zink – concorreu – e venceu – o prêmio de Melhor Projeto Residencial no A’Design Awards, uma espécie de Oscar da arquitetura mundial, em cerimônia realizada em Milão.
Octavio recebeu Business Luxo para a entrevista à seguir, onde conta detalhes da estratégia e dos objetivos da Gafisa Signature, analisa o atual momento do mercado imobiliário no País e desenha o perfil deste novo – e exigente – cliente da empresa. “É um comprador que não se contenta apenas com apartamento grande: ele quer saber de todos os detalhes, até se sua Ferrari não vai raspar no asfalto ao sair da garagem.”

Octávio Flores, da Gafisa

Octávio Flores, da Gafisa

Business Luxo – Por que a Gafisa, com mais de seis décadas de empreendimentos identificados com a classe média, resolveu lançar este portfólio Signature?
Octávio Flores – A Gafisa sempre trabalhou muito bem com produtos entre R$ 300 mil a R$ 2 milhões. Em 2010, a empresa começou a olhar este segmento mais de topo. Foi um aprendizado que adquirimos desde então no segmento, e que nos deu a tranquilidade de criarmos um selo de qualidade: o Gafisa Signature. É a evolução de tudo isso.

B|Luxo – É uma ‘company in company’? O que muda internamente?
OF – A ideia como um todo é que a Gafisa está se vendo como uma construtora e incorporadora muito tradicional e com força para entregar produtos de alto nível. Criamos, então, uma marca forte, que consiga mostrar que existe uma etiqueta separada do mundo gigante da Gafisa. Uma divisão onde recrutamos os melhores profissionais da empresa para desenvolver todas as etapas do projeto. O desafio é este, se diferenciar internamente, com os funcionários, e externamente junto aos clientes, com projetos pensados caso a caso. Formar no mercado o pensamento de que o selo Signature seja reconhecido como uma espécie de primeira classe de uma companhia aérea.

B|Luxo – Qual é a estratégia de negócio?
OF – É um mercado onde buscamos fazer um lançamento por ano, para manter a exclusividade, trabalhar o terreno certo, enfim, valorizar todo o esforço colocado no projeto, no design. O ritmo (de lançamentos) é o mercado que define. Não adianta lançar tudo o que se pode. Até porque estamos falando de poucos bairros em São Paulo que comportam este tipo de projeto. O novo label serve, então, para nomear empreendimentos com este pedigree. Um tratamento muito menos de commodities e muito mais para atender a uma necessidade de projetos diferenciados.

 

Projeto do MN15, em São Paulo

Projeto do MN15, em São Paulo: design único

B|Luxo – Qual o projeto mais recente do selo Signature?
OF – Lançamos neste ano o MN15, uma torre de 15 andares com uma unidade por piso, de 340m2, com vista única para o Parque do Ibirapuera. No MN15, buscamos muito o apelo do design. Fizemos um prédio diferente, com varandas descasadas, onde você pode ter um jardim irrigado – todos únicos por andar – que poderia ter em uma casa. Além disso, temos o pé direito mais alto, com janelas quase que de parede a parede e do chão ao teto, que mais parece um hotel de Las Vegas do que um apartamento em São Paulo.

B|Luxo – O projeto foi premiado em Milão, inclusive.
OF – Sim. O projeto é do escritório Konigsberg Vanucci, com design de interiores de Zize Zink, e foi premiado como o melhor prédio residencial no A’ Design Awards, em Milão. Esta chancela ajudou a corroborar isso: a nossa preocupação com a exclusividade de projeto, o apelo de design, no que resultou em um projeto brasileiro, o primeiro, a ganhar o prêmio.

B|Luxo – Este é um nicho novo, com um cliente novo para a empresa. Quem é ele e o que ele quer?
OF – É um cliente que não espera só um apartamento grande. A conversa é mais ampla. Precisa ter portas mais altas, janelas maiores, pé direito duplo, mais luz, piso e caixilhos acústicos… Ele quer o conforto de não precisar interromper uma conversa porque está passando um avião próximo da sua casa. Quer um sistema de segurança bem planejado ao extremo. Quer saber até se a Ferrari dele vai raspar no asfalto na hora de sair da garagem. E, para atender a este cliente ‘Signature’, estamos treinando uma equipe de vendas e de atendimento.

B|Luxo – Como você analisa a atual situação do mercado imobiliário do País?
OF – A renda do brasileiro mudou muito nos últimos cinco anos, aumentando a distância entre quem tem muito dinheiro e quem é classe média, média alta. Então, quem antes comprava apartamento de R$ 1 milhão, hoje procura imóveis de R$ 700 mil para baixo. Isso porque o poder de compra dessa turma perdeu força, parte pela inflação, pelos juros que subiram e porquê as pessoas não tiveram aumentos salariais nos últimos anos. Já quem tem dinheiro mesmo, com uma taxa Selic a 15% e um câmbio favorável, está com mais potencial de compra ainda.

(De São Paulo)