A luta de Freddy Rabbat contra o tempo

À frente da ABRAEL (Associação Brasileira das Empresas de Luxo) e de marcas da alta relojoaria suíça em operação no Brasil, Freddy Rabbat quer acertar os ponteiros do mercado de luxo nacional neste momento de crise. Para isso, vê urgência em amplificar o diálogo entre o governo e empresários do setor.

Apaixonado por relógios desde a juventude, o executivo Freddy Rabbat anda sempre com dois, um em cada pulso. A mania tem razão de ser: como brand manager de importantes marcas da alta relojoaria mundial em atuação no País – Tag Heuer, Frederique Constant e Bomberg -, o executivo é porta-voz e embaixador das empresas que representa. Viver sob a ‘vigilância’ do tempo é, portanto, algo que faz parte do dia-a-dia deste executivo, descendente de libaneses e um aficcionado por carros esportivos – ele tem dois Porsches vintage na garagem de sua casa de campo.
Mas o que mais tem pressionado Freddy Rabbat nos últimos anos não é o ‘tic-tac‘ que vem dos seus relógios. Como presidente da ABRAEL (Associação Brasileira das Empresas de Luxo), sua missão mais urgente tem sido acertar os ponteiros do mercado de luxo nacional, a fim de recolocá-lo em sintonia com o resto do mundo.

Freddy Rabbat, da ABRAEL: luxo brasileiro sob risco

A tarefa é árdua. Graças à uma abordagem desinformada do governo sobre o setor, o luxo brasileiro está com o seu ‘fuso competitivo’ em atraso com relação aos demais mercados. Neste ritmo, alerta Rabbat, corre-se o sério risco de perdermos o timing e, com ele, as marcas que aqui ainda operam.
Inquieto, o ex-capo da Montblanc no Brasil – maison da qual se desligou em 2012 -, tem um discurso afiado e argumentos precisos para debater as saídas e o futuro do setor no País. A começar pela elevada carga de impostos, a necessidade de se estancar a exportação de consumidores brasileiros e tentar trazer o governo para o jogo. Do contrário, ‘tic-tac‘, veremos muito em breve um aumento na debandada das marcas, iniciada há dois anos. “Tem muita gente que já foi embora e tem muita gente fazendo as malas para partir”, diz ele.
Foi com esta pauta que Freddy Rabbat recebeu Business Luxo em sua sala, na consultoria que mantém  em São Paulo. Para ele, já passou da hora de discutirmos novos rumos para o luxo nacional. ‘Tic-tac’, não há mais tempo a perder.

Business Luxo – Com todo este cenário atual na economia e na política do País, ainda somos um bom negócio para o mercado de luxo internacional?
Freddy Rabbat – O Brasil é uma aposta, um investimento para todas as marcas de luxo. A gente só precisa colaborar para que elas não desistam do Brasil. Tem muita gente que já foi embora – Piaget, Vacheron Constantin, Longchamp, para citar as mais recentes –, e tem muita gente fazendo as malas para partir.

B|Luxo – Colaborar de que forma?
Rabbat – O Brasil é um país complicado. Sobretudo porque o Estado insiste em achar que é maior do que o mercado. E não é! Isso passa pela questão dos impostos… Veja o exemplo do México: há 15 anos, eles mudaram sua política de impostos para o setor e, hoje, são um mercado de Primeiro Mundo para as marcas de luxo. E a economia mexicana quebrou por conta disso? Não!

B|Luxo – O que sugere? Imposto zero para os artigos importados de luxo?
Rabbat – Ou imposto zero ou um valor fixo. Vamos pegar a indústria automobilística. Se, ao invés de cobrar 35% em taxas sobre cada veículo importado, o governo cobrasse US$ 20 mil, por exemplo, sobre qualquer carro importado. Ia entrar algum carro chinês no Brasil? Não, e você protegeria nossa indústria, cujo mercado mais forte é o de carros mais acessíveis, de até R$ 120 mil. Aí vão dizer: ‘Ah, mas um Lamborghini, um Audi R7 vai sair de graça!’ Pergunto: e a indústria nacional vai acabar se forem vendidos mais R7 ou Lamborghinis? Não.

B|Luxo – O que falta para uma proposta como essa vingar?
Rabbat – Hoje estamos exportando consumidores e, com isso, perdendo empregos e deixando de gerar divisas. Então, para uma evolução do nosso mercado, é preciso sensibilizar nossos governantes de que estamos perdendo tudo isso. Espero que com os próximos governos, mais modernos, eles possam ver o quão desinseridos da realidade mundial nós estamos. Agora, você já imaginou um ‘político novo’ no Brasil sugerindo tirar imposto de produto de luxo? Vai queimar na fogueira! (risos)

B|Luxo – Por que?
Rabbat – Porque especialmente em português, o termo ‘luxo’ está ligado a ‘luxúria’, a ‘pecado’, e isso é ruim, Então, ninguém gosta de luxo. Mas não é isso. Luxo não é o que a maioria das pessoas pensa, da exclusão das pessoas. Muito além disso, quem investe no luxo no Brasil ajuda a qualificar o profissional brasileiro.

Em maio, na inauguração da nova loja da Tag Heuer no Rio de Janeiro

B|Luxo – Qual o tamanho do nosso mercado hoje?
Rabbat – O consumo de luxo no Brasil se concentra entre em São Paulo, cerca de 30%. Se você somar o mailing dos três principais shoppings do segmento na cidade teremos uns 100 mil nomes. No Brasil todo, devemos ter perto de 500 mil consumidores de fato, de um total de 4 milhões de pessoas – a diferença são aqueles desejam comprar algum item de luxo.

B|Luxo – Nos últimos dois anos vimos o fechamento de muitas lojas. Além da crise em si, houve um erro de estratégia das marcas ao desembarcarem no Brasil na década passada?
Rabbat – Sim, um enorme erro, não havia pesquisa sobre o nosso mercado e as decisões dos boards eram tomadas em cima de resultados de outras marcas e do que saia na imprensa. Saímos de 15 marcas em operação aqui para 150! Só que o País não enriqueceu dez vezes. No final, não tinha espaço para todo mundo.

B|Luxo – Ainda assim, montadoras como a Mercedes-Benz e a Land Rover inauguraram suas fábricas aqui. O que acha disso?
Rabbat – Essa brincadeira de ‘obrigar’ todo mundo a construir fábrica no Brasil é ridículo! Porque em troca da fábrica, o País perde um monte de outras coisas. Você trazer 20 fábricas para cá, para produzir modelos de carros que tem um volume de consumo pequeno e num País que não tem eficiência para exportar, para quem isso é um bom negócio? Vejo muitas marcas que vêm para cá em busca da isenção de impostos para importar os modelos topo de linha. Já aqueles fabricados aqui permanecem custando mais caro do que faz lá fora. É uma aberração.

B|Luxo – Pensar em uma política de produção industrial para o setor no Brasil é um equivoco, então?
Rabbat – Pior ainda: imagina se o Brasil quisesse, por exemplo, que a Rolex viesse fabricar seus relógios no País? Ou uma Louis Vuitton, para produzir bolsas. Ela vai qualificar apenas meia dúzia de artesãos, que é quem faz isso. Agora, a hora que o País se permitir ter mais consumo interno, a marca vai pegar uma mão-de-obra mais básica, mais de acordo com a realidade brasileira, e vai treinar este pessoal todo para abrir lojas e vender seus produtos para os mesmos brasileiros que compram no Exterior. Teríamos assim muito mais gente trabalhando, áreas de marketing mais desenvolvidas, mais investimentos. Portanto, investir em indústria para se ter 20%, 30% da produção no Brasil, acaba sacrificando 100% do negócio.

B|Luxo – Na sua opinião, qual seria o produto de luxo genuinamente brasileiro? (*)
Rabbat – Sem dúvida o serviço, o atendimento. O savoir faire do profissional daqui é superior a de qualquer outro.
(*) Esta resposta completa você assiste clicando aqui.

B|Luxo – No segmento de varejo que você atua, o de relógios, qual o pulso que se tem no momento?
Rabbat – Este setor sofre muito com a concorrência do turismo de consumo no Exterior. Óbvio, todo cliente do mercado de luxo viaja. O limitador deste segmento é o preço: o valor que se paga aqui dentro tem de ser semelhante ao que ele pagaria lá fora. Então, o fabricante estrangeiro, o importador e o revendedor brasileiro fazem um sacrifício atroz para poder vender no mesmo preço. Essa política de tributação sobre os produtos importados tira do brasileiro a oportunidade de consumir no próprio País. É o mesmo o que vejo acontecendo com os automóveis. Tem muita gente que prefere consumir a experiência fora – alugando carros de sonho quando viaja ao Exterior – do que ter um aqui, até pela questão da segurança. Esse cara no Brasil tem de ter um carro mais robusto, blindado. Ter um carro melhor só para ver na garagem ou dar uma voltinha de vez em quando.

(De São Paulo|SP)