O toque brasileiro na arquitetura de Dubai

Em uma Dubai mundialmente conhecida por seus arranha-céus – o mais famoso deles, o Burj Arab, tem incríveis 163 andares! – é um empreendimento horizontal, com prédios de, no máximo, seis andares, que virou notícia não só no país, mas em todo o Oriente Médio.
O City Walk Dubai é um conjunto de 20 edifícios distribuídos em um boulevard de um quilômetro de extensão que reúne lojas de grife (Cavalli, Missoni, Karl Lagerfeld, DVF, Rolls Royce), escritórios, restaurantes, bares, 500 apartamentos residenciais, 600 vagas de garagem, tudo em 13 mil m2 de área. Inaugurado no final de 2013, o lugar fez tanto sucesso que ganhou até um fã ilustre: o próprio sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro e vice-presidente dos Emirados Árabes, que é frequentador dos cafés locais e costuma ser visto passeando à pé pelo lugar – claro, com seu séquito de seguranças e assistentes, como manda a nobreza.
Tudo isso impressiona, pois o City Walk mudou definitivamente o jeito de viver e de ‘usar’ a cidade. Mas o que isso tudo tem a ver com os brasileiros? Tudo. Fora Dubai ser um dos destinos mais cobiçados pelos turistas nacionais, toda a concepção arquitetônica do City Walk é da paranaense Cristina Wakamatsu, diretora de design e sócia do escritório LW Design Group, com sede em Dubai.

Acesso do City Walk Dubai: projeto horizontal virou case no Oriente Médio

Nascida em Londrina e com passagens por importantes escritórios de arquitetura do Japão, Itália e Bahrein, Cristina liderou toda a criação e construção do empreendimento, que demorou três anos para ficar pronto. Desde 2014, Cristina comanda a filial da empresa em São Paulo. A LW é responsável por projetos de restaurantes estrelados e hoteis de bandeiras renomadas como o Hyatt, Raffles, Starwood, Accor e Jumeirah Internacional. Em um encontro com Business Luxo – e acompanhada de seu marido, o também arquiteto e urbanista Renato Conde, que atua como special advisor em determinados projetos –, Cristina Wakamatsu conta como foi o desenvolvimento do City Walk, explica o conceito de ‘hospitality’ que estão trazendo para o Brasil e de como é trabalhar em um escritório que tem na carteira clientes príncipes, sheiks árabes e até um primo do presidente sírio Bashar Al Assad.

Business Luxo – Como foi desenvolver um projeto que muda o hábito e o comportamento de consumo de todo um mercado, como foi o City Walk Dubai?

Cristina Wakamatsu – Foi um projeto que conquistamos ao vencer uma competição internacional promovida pela incorporadora Meraas, uma das maiores de Dubai. Recebemos a master plan com a determinação de construirmos prédios mais baixos e o fizemos. São 20 prédios com 500 apartamentos e escritórios, onde todos os pisos térreos servem para o lazer, com lojas, cafés, restaurantes.

Renato Conde –
Ele tem um parque linear no meio dos prédios, que são permeáveis: as pessoas podem circular por entre eles, mesmo não sendo moradores. Tem passeios sombreados, ciclovias, acesso ao metro, convidando as pessoas para explorar tudo caminhando, sem carro.

Cristina Wakamatsu

B|Luxo – Mas é pouco usual um projeto horizontal no Oriente Médio moderno, não?
Cristina – Sim, este projeto criou essa nova demanda. Trouxeram o conceito dos blocos urbanos, com ruas sombreadas, para as pessoas caminharem entre os prédios, o ‘walk’ do termo. E tudo numa escala mais humana, com edifícios mais baixos. Virou um benchmark na região: temos incorporadores no Egito e na Arábia Saudita que encomendaram ‘city walks’ para as suas capitais. Deu tão certo que já estamos trabalhando na fase dois, uma expansão em L, com mais edifícios.

B|Luxo – Foi uma mudança significativa no hábito local também, não?
Cristina – Sem dúvida, toda vez que vou a Dubai, passo a tarde no boulevard para tomar um café, almoçar e observar a alegria das pessoas em poderem caminhar por ali. Sinto como elas mudaram mesmo o costume de como usam o espaço. Até o sheik Mohammed vai caminhar por lá!

B|Luxo – A construtora do projeto, a Meraas, é de um irmão do sheik. Como é trabalhar para a família real de um país?
Cristina – É engraçado e tenso, porque o nível de exigência é muito muito grande. Já fiz outro projeto para eles, uma torre de 111 andares, que está parada no momento. E também várias residências para membros da família.

B|Luxo – Em quais outros projetos estão envolvidos agora?
Cristina – Há um hotel no distrito que está sendo formado no entorno da Dubai Creek Harbour Tower – a maior torre de comunicação do mundo, projetada por Santiago Calatrava. Temos encomendas na Índia e na África, e estamos prospectando o mercado brasileiro.

B|Luxo – Quais os objetivos por aqui?
Cristina – Estamos prospectando, já falamos com proprietários de terrenos na capital e no interior de São Paulo que estão interessados em inovar com projetos da LW. Procuramos projetos high end sim, de luxo, mas isso não significa que usaremos ouro nas paredes ou cúpulas no teto, como se pode imaginar de uma empresa com sede em Dubai. Até porque meus sócios são, na maioria, nórdicos, então, a visão é de algo mais clean, estético e funcional.

Renato Conde

B|Luxo: O escritório é especializado no conceito ‘hospitality’. Como vocês definem isso?
Renato É comum as pessoas confundirem hospitality com algo relacionado apenas a hotelaria. E não é. Isso diz respeito a uma abordagem, um estilo de vida, transportado para a arquitetura e o design.
Cristina – É oferecer uma experiência fora do cotidiano, diferente, até com uma nova dimensão. E a arquitetura faz parte disso, usando o meio, os materiais e os ambientes para fazer relaxar, desconectar – ou conectar, dependendo do perfil do produto/hóspede. Criar este cenário, esta sensação, é disso o que eu gosto.

B|Luxo – Há uma tendência atual de se levar a experiência ‘hotel’ para dentro de casa?
Cristina – Sim! Temos muitos clientes de projetos residenciais que foram hospedes de hoteis que nós projetamos e buscam repetir a experiência em casa, em suas vilas. Querem o conforto extremo, ter uma master suíte dos principais hoteis cinco estrelas reproduzida em casa. Criamos isso, acrescentando certo toque da personalidade do cliente nos ambientes para não fique tão impessoal.

B|Luxo – Voltando ao Oriente, vocês já desenvolveram projetos em Alepo e Damasco, na Síria, antes da guerra civil acabar com o país. Como foi viver isso?
Cristina –
Em 2010, eu e Renato viajamos muito para a Síria, em um contrato com uma construtora de um primo do presidente Bashar Al Assad. Fizemos nove projetos de hoteis e resorts em Damasco e no litoral. Em Alepo, desenvolvemos um complexo de hoteis boutique revitalizando sete prédios históricos que ficam em uma citadela, no alto de uma colina. Infelizmente começou o conflito e o projeto teve de ser paralisado.
Renato – O local originalmente abrigou engenheiros que construíram a estrada de ferro Bagdá-Berlim, mas já deve ter sido destruído por bombardeios. Uma pena porque ir a Alepo era como viajar no tempo. Como a globalização ainda não havia chegado ao país, você parecia estar em outro século. Era mágico viajar até lá.

(De São Paulo|SP)