De hippie a empreendedor: Carlos Eduardo Régis Bittencourt, Terravista Trancoso

Era para ser uma fuga da cidade grande rumo a uma vida mais alternativa. Com dinheiro na mão, uma namorada e um Fusca, Carlos Eduardo Régis Bittencourt pegou a estrada, de São Paulo para a Bahia, determinado a encontrar o seu palmo de chão. Duas condições: tinha de ser perto da praia (Carlos é exímio mergulhador) e ter uma terra fértil, para poder plantar. “A ideia era ter uma vida mais alternativa e independente. Queria uma revolução pessoal na minha vida”, dizia ele. O fim do trajeto, todo rodado pela então recém-inaugurada BR-101, foi Trancoso, o distrito de Porto Seguro, no litoral da Bahia. Era 1975 e o lugar parecia parado no tempo, sem água encanada, telefone e nem outras ‘mordomias’ da cidade grande.
A revolução pessoal, de fato, aconteceu. Carlos Eduardo virou o ‘Calé’, figura pública e reverenciada daquelas praias. O Fusca se foi, assim como a namorada, que não resistiu ao estilo de vida tão… ‘raiz’ daqueles primeiros anos na Bahia. Calé, no entanto, não conseguiu conquistar a tão sonhada vida alternativa. Mas foi um pouco além disso.
Aos 62 anos, ele é o empresário mais poderoso da região, cujo nome está à frente de empreendimentos vultosos como o Terravista Trancoso, um complexo que conta com um campo de golfe profissional, um resort de luxo (o Club Med Trancoso), um condomínio de casas que chegam a custar R$ 3,5 milhões, um teatro com salas para duas mil pessoas e um aeroporto privativo, que recebe os jatos executivos dos vizinhos milionários e dos clientes do complexo. Calé ainda participa como sócio de mais de uma dezena de outros negócios naquele lugar que é, hoje, o balneário mais sofisticado do País.
“Parece que meu plano inicial, aquela coisa de vida mais alternativa, não deu muito certo”, ri ele de si mesmo, enquanto bebe um café e conversa com Business Luxo, em um restaurante na capital paulista. Carioca de nascimento e baiano por opção, Carlos Eduardo é, antes de tudo, um visionário. Não apenas pelo êxito que alcançou nos negócios, mas por enxergar, lá atrás, ainda no final dos anos 1980, que a chave para o desenvolvimento daquela região – fosse qual fosse a vocação que dela se apossaria – era preservar a natureza e a identidade cultural daquele povoado. E ele tinha razão. Numa época onde as palavras ‘ecologia’ e ‘sustentabilidade’ sequer eram pronunciadas, o empresário se antecipou e fez destes dois ingredientes a receita de sucesso daquele destino turístico, simbolizado pelo famoso Quadrado, onde se vêem popstars internacionais, banqueiros, topmodels e astros de Hollywood. À seguir, a entrevista com Carlos Eduardo Régis Bittencourt.

Carlos Eduardo Régis Bittencourt, do Terravista Trancoso.

Business Luxo: Que loucura foi essa a de pegar estrada num Fusca e partir para Trancoso? Tinha planejado chegar até lá?
Carlos Eduardo Régis Bittencourt – Nunca tinha ouvido falar em Trancoso! Eu tinha 20 anos, morava em São Paulo e estudava Jornalismo quando decidi pegar a minha namorada e partir.

B|Luxo: Mas com qual objetivo?
Bittencourt: Eu queria ter uma vida alternativa, independente, fora de uma grande cidade e com possibilidade de autonomia. Encontrar uma terra relativamente fértil para poder plantar, mas perto do mar, para pescar também. A ideia era fazer uma revolução pessoal na minha vida e estou lá até hoje.

B|Luxo: E o que encontrou quando chegou em Trancoso?
Bittencourt: Muitos coqueiros com certeza (risos), mas quase a mesma coisa do que temos hoje por lá: uma mistura de um lugar bonito, um clima fantástico, pessoas locais muito interessantes. Só que não tinha telefone, Correios, apenas um telégrafo velho e que não funcionava.

B|Luxo: E como você partiu disso a se tornar um dos empreendedores mais importantes do turismo nacional?
Bittencourt: O turismo foi uma consequência, não uma opção inicial. Surgiu depois de uma sequencia de projetos que desenvolvi em Trancoso para defender o lugar. Naquela época, Trancoso era um lugar extremamente desconhecido do turismo.

Quadrado, em Trancoso: centro histórico do vilarejo descoberto em 1500.

B|Luxo: E quando tudo começou a mudar?
Bittencourt: Foi no fim dos anos 1980, quando alguns artistas começaram a frequentar Trancoso depois de terem rodado alguns filmes ali. Eles e seus amigos começaram a comprar terrenos e, na hora, pensei: “Opa, é melhor eu começar a me mexer.” Me associei a algumas pessoas e fomos comprando toda a terra que podíamos. Queríamos proteger aquele paraíso.

B|Luxo: Que medidas você e o seu grupo de associados tomaram neste sentido?
Bittencourt: Com os terrenos, nós criamos um mosaico que deu oportunidade para se criar um master plan da região, definindo onde poderiam ser construídos os hoteis, as casas, o comércio. Até quando chegou o asfalto (estrada), nós conseguimos colocá-lo no lugar certo, por trás da linha da praia, a 8km da faixa de areia. Isso foi fundamental para a preservação de Trancoso.

B|Luxo: Por que?
Bittencourt: Porque quando você passa com uma estrada em cima do litoral, isso vira um desastre. Com o asfalto, vem junto o comércio, os restaurantes, a borracharia, o posto de gasolina, enfim, toda uma vida urbana que não combina com a sustentabilidade.

Vista deslumbrante do campo de golfe no complexo Terravista Trancoso

B|Luxo: Então surgiu o Terravista.
Bittencourt: Sim, o projeto começou em 1998, em 2002 abrimos o primeiro empreendimento que foi o Club Med Trancoso. A proposta foi sempre a de não destruir a área de 1.200 hectares – onde ocupamos apenas 110 –, mas acrescentar para a região. Crescer, desenvolver, mas manter a preservação e o espírito do lugar. Costumo comparar Trancoso com Parati (RJ), por seguirem estes mesmo aspectos.

B|Luxo: Como se divide o complexo hoje?
Bittencourt: Temos quatro unidades de negócios distintas: o campo de golfe, o teatro L’Occitane (feito em sociedade com o acionista principal da marca de beleza e bem-estar, o austríaco Reinold Geiger, que tem casa em Trancoso), o aeroporto – que chega a ficar lotado na temporada de verão, com mais de 80 pousos e decolagens por dia no feriado de Ano Novo – e o condomínio de casas. Nesta última, movimentamos cerca de R$ 30 milhões em 2016 apenas com a venda e a locação das residências. O hotel Club Med e o futuro Txai, que deve abrir no complexo em 2018, não pertencem ao grupo.

B|Luxo: Como funciona o condomínio?
Bittencourt: Criamos um pool que administra 60 das 100 casas que temos, em sistema de locação. Isso levou o investimento a um outro patamar, já que ele pode passar a gerar renda ao seu proprietário. Além disso, o dono e sua família podem usufruir do aeroporto, do campo de golfe e do resort, com descontos significativos.

Vila Brisa, projeto dentro do condomínio de casas do Terravista Trancoso

B|Luxo: Quem são seus clientes no condomínio?
Bittencourt: Na primeira fase, em 2006, vendemos 80% dos lotes em apenas um verão – e 94% dos compradores eram europeus. Com a crise de 2008, essa turma revendeu quase tudo e os brasileiros se tornaram os maiores proprietários. Em 2016, lançamos outras 20 casas, que serão entregues prontas, mobiliadas e equipadas se o comprador quiser. São as ‘villas’, que seguem um padrão arquitetônico determinado e têm preços entre R$ 950 mil (02 suítes, sem decoração) a R$ 3,5 milhões (05 suítes, 100% equipada). Vendemos metade desta leva em cinco meses. Há também terrenos disponíveis, limpos, onde o comprador constrói sua própria casa seguindo um padrão determinado.

B|Luxo: De onde vem os compradores?
Bittencourt: A maioria vem de São Paulo e do Rio, além de muitos das cidades e estados do agronegócio, como Campinas, Ribeirão Preto, Triângulo Mineiro, Goiás e Mato Grosso.

B|Luxo: Foi uma mudança forte no mercado, então?
Bittencourt: Com certeza, o mercado mudou muito e este cliente novo, emergente, começou a aparecer de uns três anos para cá. O perfil de quem vai para lá se posicionou muito no topo da pirâmide. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi excepcional para os negócios do complexo. Tivemos menos gente, mas com um ticket de consumo muito maior do que nos anos anteriores.

Festa de Réveillon em Trancoso: jet set internacional marca presença

B|Luxo: Como destino também, Trancoso mudou muito também, não?
Bittencourt: Com certeza, Trancoso se posicionou muito bem nos últimos anos. Entrou em um circuito de lugares do mundo onde circulam os brasileiros que buscam sofisticação. Vejo que a turma que vai à Trancoso é a mesma que passa o Réveillon em St. Barths ou Punta del Este e o verão em Ibiza ou Saint-Tropez.

B|Luxo: Você acredita que este sucesso todo de Trancoso só foi possível graças ao que fora feito em termos de preservação há 30 anos?
Bittencourt: Com toda certeza, o sucesso de Trancoso se deve ao que aconteceu lá atrás, quando lutamos pela preservação da natureza e da sua identidade cultural. As festas típicas, os valores, a arquitetura, o modo de vida daquele povo foram protegidos e se mantêm até hoje. Tudo isso se transforma em uma experiência única, o que acaba atraindo gente do mundo todo.

B|Luxo: Passava pela sua cabeça, 40 anos atrás, enquanto dirigia aquele Fusca pela BR-101, que aconteceria tudo isso na sua vida? O Fusca, aliás, ainda existe?
Bittencourt: Não (risos), o Fusca não resistiu e a namorada também não. Ela não segurou aquela vida no começo, foi muito difícil. Mas de maneira nenhuma, não imaginava que tudo cresceria assim. Imaginava apenas que queria preservar aquele lugar. E, isso, conseguimos fazer.

(De São Paulo|SP)