Os desafios do mercado de luxo na França

Em artigo assinado pela diretora da Euromonitor International, Fflur Roberts, o país enfrenta o medo do terrorismo e uma economia em desaceleração, mas tem como trunfo ser um destino de compras incomparável, além de contar com uma classe média em rápida expansão. (*)

A França foi a sexta maior economia do mundo em 2016 e, no mercado de luxury goods, ficou em quarto lugar – atrás dos Estados Unidos e China –, movimentando US$ 22 bilhões. Embora tenha evitado a recessão no início desta década, a performance econômica francesa foi anêmica e o mercado de luxo enfrenta ventos frontais.
A partir de novembro de 2015, a França foi atingida por ataques terroristas, com incidentes em Paris, Nice e em outras partes do país, estremecendo a confiança do consumidor e espantando o visitante internacional. O contexto social era tenso, devido a ataques às leis trabalhistas e uma certa agitação na indústria. Os gastos domésticos permaneceram tímidos, com vendas estáveis em setores-chave como o de roupas de design, calçados, vinhos finos, champagnes e ‘spirits’.

A França permanece como destino de compras
As compras de luxo continuam a atrair muitos turistas afortunados no mundo todo e a França, com suas inúmeras capitais regionais, é um dos destinos preferidos. A França é a segunda colocada mundial como destino para compras de luxury goods, concentrando cerca de 24% de todo o volume consumido no mundo no ano passado.

Consumo de luxury goods em Paris: alimentado pelos turistas internacionais

O número impressiona, sobretudo por se tratar de um ano onde a desaceleração da economia mundial, o medo do terrorismo na Europa e as flutuações do câmbio acabaram por atrair ao país mais turistas de classe média. Neste cenário, o consumo de itens de luxo na França caiu -4% em relação a 2015.
Mesmo assim, as marcas de luxo permanecem otimistas – dados do levantamento da Euromonitor apontaram para o desembarque de 85 milhões de turistas na França em 2016, número muito superior a qualquer outro país do mundo. Deste total, um terço se dirigiu à Paris para compras e gastronomia.
Olhando adiante, a França permanecerá como um destino popular para o turista de alta renda. A perspectiva é particularmente positiva quanto aos chineses, que deverão chegar a 2,6 milhões de turistas até 2020. Estes números deverão impactar nas vendas das marcas de luxo, bem como melhorar a performance dos hoteis locais, cujos resultados estão estáveis há cinco anos.

Gastronomia e o setor de bebidas finas no país não foram afetados 

O perfil demográfico francês reflete na pirâmide social, onde o topo concentra as famílias com renda superior a US$ 150 mil, e a faixa etária predominante é superior aos 65 anos. Este padrão deve se acentuar no longo prazo, o que garante o consumo de luxo estável, mas cria desafios também.
Em termos de classe média, serão 9,3 milhões de famílias até 2030 (eram 8,3 milhões em 2014), com renda na casa dos US$ 60 mil/ano. A busca por empregos, salários e mais qualidade de vida têm pressionado os franceses desta classe, alterando o seu comportamento de consumo. As marcas de luxo precisam, agora, serem ainda mais inovadoras e focarem na saúde e no bem-estar se quiserem cativar estes consumidores.
Quando falamos nos clientes de maior poder aquisitivo, existem 10 milhões de HNWIs na Europa ocidental, com um terço disso vivendo na França – concentração que coloca o país em quarto lugar global, à frente da Alemanha e da China. A previsão é de que este número aumente até 2030, a um ritmo 221% mais rápido que os demais países do continente.

(*) Fllur Roberts, diretora da Euromonitor