Luxo Brasil, 12/2016

Prometo não usar termos como ‘desafiador’, ‘difícil’ ou ‘de severa adequação’ neste texto-balanço de final de ano do setor. Como você sabe, 2016 foi tudo isso e mais um pouco, afetando todo mundo – o mercado de luxo inclusive. Foram meses que têm nos surpreendido e feito refletir sobre o nosso futuro individual e de toda uma nação.
Mas vamos aos fatos. O luxo deve fechar o ano em crescimento – pasme! – no Brasil. Como? Onde? Será possível? Estimativas na virada do segundo semestre da ABRAEL (Associação Brasileira das Empresas de Luxo) apontavam um aumento entre 11% a 13% no consumo de produtos do segmento. Ver para crer, sobretudo contando com os resultados de dezembro, que sempre impulsionam as vendas nesta reta final.

Arf! Arf!
Durante o ano, o que vi foi um varejo em sofrimento. Lojas vazias, precisando ir buscar o cliente em casa – literalmente – para gerar caixa. Marcas de entrada, segmentos como o de relojoaria, de acessórios de moda e de decoração, todos respirando com dificuldade e rezando para o ano acabar.

Na banguela
Registrou-se também uma queda de cerca de 30% a 40% nas vendas dos carros que atendem a este perfil. A aclamada ‘mágica alemã’ obtida em anos anteriores pela Mercedes-Benz, Audi e BMW, caiu por terra nos primeiros seis meses de 2016. Vendas frustradas pela expectativa com o processo de impeachment, foi o que escutei de alguns players.

Susto!
Setores mais high end ainda, como o náutico e o aeronáutico, também viveram seus pesadelos particulares. Muito embora os estaleiros tenham acordado deste sonho ruim a partir de agosto, com boa recuperação neste trimestre final, a turma dos jatos executivos e share de aeronaves ainda se contorce na cama, suando frio diante de uma turbulência que insiste em persistir.

Casa própria
Lançamentos imobiliários também reduziram a marcha. Quem estava construindo, finalizou as obras e só. Quem pensava em apresentar algo novo no mercado ficou no plano das ideias: melhor manter os terrenos vazios do que se arriscar a lançar algo sem ter quem compre. Tirar o dinheiro de aplicações financeiras mais seguras para investir em lajes e tijolos não foi a estratégia escolhida pelos clientes das principais construtoras e incorporadoras do País. Portanto, com uma oferta mais enxuta, os resultados delas ficaram no azul.

Concierge 1
O turismo de lazer, este sim, viveu dias mais calmos. Na hotelaria, sobretudo. No primeiro semestre, o dólar caro fez com que os viajantes habitués das salas de embarque internacionais ‘optassem’ por roteiros em solo nacional. E os poucos e bons hoteis do setor ficaram mais cheios. As Olimpíadas também ajudaram ao Rio, que agora tem uma séria equação para resolver: o que fazer com tantos quartos vazios pós-Jogos?

Concierge 2
Outro sinal positivo é que vive-se a expectativa da abertura de novas bandeiras cinco estrelas no País, como o Four Seasons e o Palácio Tangará (Oetcker Collection), em São Paulo, o novo Emiliano Rio (dizem, o mais bonito da cidade), e a chegada do Fera Salvador, do grupo hoteleiro liderado pelo empresário mineiro Antonio Mazzafera. Isso sem falar no Cidade Matarazzo, uma autêntica obra de arte prevista para abrir as portas em 2018.

Contagem regressiva
Em última análise, o luxo no Brasil agiu para fechar o ano de forma bem conservadora, buscando bater os mesmos resultados de 2015 e enxugando custos para manter as operações saudáveis. Salvo este ou aquele segmento, cuja performance mostrou mais vigor a partir de setembro, este foi mesmo um período de ajustes de contas. A ver em 2017, um ano que já começa com uma baixa expectativa de melhora na economia e apontando para mais 12 meses ‘desafiadores’, ‘difíceis’ e de nova ‘severa adequação’. Ops! Pronto, falei.

Fabiano Mazzei é jornalista especializado em mercado de luxo, fundador e diretor do site Business Luxo (www.businessluxo.com.br) coordenador do conteúdo de Luxury Management no IED-SP.

@fmazzei ||| @businessluxo ||| fmazzei@businessluxo.com.br