O olhar estrangeiro sobre o luxo brasileiro

Diretora de pesquisa da Euromonitor, Fflur Roberts assina artigo onde diz que a incerteza na economia brasileira tem estrangulado o mercado de luxo no País.

Uma das consultorias mais respeitadas do setor, a Euromonitor analisou o momento do Brasil e concluiu: a incerteza na recuperação econômica está estrangulando o mercado de luxo brasileiro. Em artigo assinado pela diretora de pesquisa do instituto, Fflur Roberts, o texto assinala que o cenário ainda se complica mais pelos escândalos políticos associados ao governo. E pergunta como as marcas de luxo farão para se adaptar a um ambiente de negócios tão difícil?
A diretora elenca os fatores que estariam provocando a crise no segmento por aqui. Com o pior PIB entre os países dos BRICS em 2016, o Brasil viu suas exportações de commodities despencarem nos últimos anos, o câmbio sair do controle, o desemprego disparar e o poder de compra da badalada classe média de outros tempos ser corroído.

Bye, bye
Como reflexo direto no setor, o consumo de luxo no Brasil caiu entre 3% e 4% no ano passado. A partir disso, muitas das marcas que aqui desembarcaram nos anos de bonanza já fecharam suas lojas e estão deixando o País. Números não oficiais apontam para mais de 20 marcas que saíram do mercado brasileiro nos últimos dois anos.

Copo meio cheio
De positivo, a crise brasileira teria feito o consumo interno de luxury goods aumentar, em face a um dólar caro e a retenção de investimentos mais ousados fora do País. Também, segundo o texto de Fflur Roberts (leia a íntegra aqui), o número de famílias de alta renda estaria em expansão: em 2016, seriam cerca de 280 mil domicílios com faturamento maior do que US$ 300 mil por ano – um crescimento de 3% em relação a quantidade verificada doze meses antes.

Adequação 
Business Luxo já tem considerado todos estes fatores elencados por Fflur Roberts em seus editoriais. De fato, inegável, o mercado de luxo – como todo e qualquer segmento produtivo do País – sofre com a crise econômica dos últimos anos. E, naturalmente, ajustar estratégias para fazer a conta ‘fechar’, incluindo o fechamento de lojas, é algo que acontece também em outros mercados. Hong Kong e mesmo a poderosa China vivem a mesma situação. Não se trata aqui de erro no posicionamento das marcas, mas, sim, num ajuste normal de operações que se viram deficitárias em um mercado tão específico e desafiador quanto o brasileiro.

Ainda importa
O Brasil, portanto, não é o patinho feio do mercado de luxo global. Continuamos importantes, fundamentais até, para a indústria do luxo e para qualquer tomador de decisão de marca que queira obter bons resultados no continente americano. E se o varejo sofre mais – pela dependência da classe média –, há outros segmentos que respiram ares melhores.

Indicadores bons
O mercado náutico passou a exportar mais e tem recuperado suas vendas desde o final de 2016. Novos lançamentos imobiliários de alto padrão continuam a ser apresentados nas principais cidades do País. O setor hoteleiro verá a abertura de pelo menos três gigantes internacionais em nossas terras nos próximos dois anos: o Palácio Tangará (Oetker Collection), o Four Seasons São Paulo e o Cidade Matarazzo (Rosewood). Mesmo nos luxury goods, os itens de maior valor nominal permanecem com boa saída das vitrines.

Em tempo
Vale ressaltar aqui que operações como a Lava Jato e outras que estão buscando passar o País à limpo são vistas lá fora como extremamente positivas pelos investidores. Cria uma perspectiva de médio e longo prazo de que o Brasil renascerá melhor, mais sério e, portanto, com um ambiente de negócios mais favorável. Qual país dos BRICS está fazendo a mesma coisa? Rússia? África do Sul? China? Não, nenhum deles. Até nosso concorrente mais próximo, o México, está imerso em casos de corrupção envolvendo o governo local. A diferença é que por lá nenhuma investigação está sendo feita.

Sai, zica!
Há outro fator que pode ajudar nessa recuperação de forma decisiva. Para o consumidor brasileiro, mais contido nos últimos meses é verdade, o ato da compra pode representar a sua redenção particular, a sua válvula de escape. Não espanta, portanto, notar que a performance de vendas apresente melhora em datas especiais como o Natal e o Dia das Mães. O humor e o impulso emocional são fatores muito presentes no comportamento de consumo brasileiro.

Cadê o dinheiro?
O que escuto aqui e ali é que o dinheiro brasileiro não sumiu. Evidente. O comprador frequente do segmento permanece com a carteira cheia. Ele estaria, portanto, passando por um momento mais conservador – ou fazendo menos alarde, seja nos restaurantes, nas lojas e nos aeroportos aqui e lá de fora. Mas é questão de tempo, curto prazo até, para que essa turma se sinta mais à vontade para voltar a gastar. Atitude que já vem sendo sentida e que ouvi de alguns players do mercado.

Bola de cristal
O que esperar dos próximos meses de 2017, então? Arrisco a dizer que os sinais de recuperação vão se tornar mais evidentes a partir do segundo semestre. À medida em que a previsibilidade do cenário econômico ganhe contornos definidos – e o dólar encontre e estabilize em seu valor real –, a atividade econômica terá um ambiente mais favorável para retomar seu ritmo, ainda que de forma cautelosa. À reboque, um aumento no nível de consumo, incluindo o segmento luxo. Mas como fazer qualquer previsão no Brasil é exercício mais indicado para esotéricos, é melhor esperar para ver.

Fabiano Mazzei é diretor e fundador do site Business Luxo. Criou também a agência de conteúdo e consultoria Luxury Content & Consulting e coordena o conteúdo de Luxury Management no IED-SP.