Audi libre!

Montadora alemã Audi foi a primeira empresa a aproveitar o fim do embargo econômico do país socialista e explorar a ilha como plataforma de marketing.

Era comum nos anos que precederam ‘La Revolución’ cubana, no final dos anos 1950, ver os carrões de luxo daquela época – estalando de novos – rodando pelas ruas de Havana. A cidade era frequentemente escolhida como cenário para lançamento de novos veículos por parte da indústria automobilística, sobretudo a norte-americana. Com a ascensão de Fidel Castro ao poder, em 1959, e o consequente embargo econômico imposto pelos Estados Unidos, essa prática, obviamente, se encerrou. Até este mês.
Com o restabelecimento das relações diplomáticas e o fim dos bloqueios comerciais, que começaram a cair em março deste ano, a ilha voltou a figurar como opção de locação dentro das estratégias de marketing das marcas de luxo. A Chanel foi a mais rápida e promoveu seu desfile de alto verão na cidade em maio – com direito até a über model brasileira Gisele Bündchen na plateia. Dentre as monatdoras, coube a alemã Audi largar na frente.

Gisele Bündchen visita a ilha em evento da Chanel, em maio

Gisele Bündchen visita a ilha em evento da Chanel, em maio

A marca levou jornalistas e influenciadores para a capital cubana no fim de maio, onde apresentou o seu novo SUV compacto, o Q2. O motivo da escolha da cidade, segundo os executivos alemães, além da mistura de estilo, cultura e vivacidade do seu povo, foi que, assim como Cuba, a Audi também estaria passando por profundas mudanças em sua linha de produtos. E reescrevendo, portanto, a sua história.

Audi Q2 é apresentado a jornalistas em Havana

Audi Q2 é apresentado a jornalistas internacionais em Havana

O Q2 é um carro pequeno para ser chamado de SUV, que vem atender a um comprador urbano que gosta de espaço interno, porém, sem apreço por carros enormes. Uma aposta em um novo tipo de motorista, que tem ganhado as ruas nas principais cidades do planeta. O teste levou os condutores a rodarem por cerca de 140km pela cidade e arredores e nem é preciso dizer o impacto que o evento teve no dia-a-dia dos cubanos, já que estão mais acostumados a ver pelas ‘calles’ apenas os reluzentes Buicks, Chevrolets e Chryslers anos 1950.

Presença do carro na Praça da Revolução chamou a atenção dos locais e turistas. O que Che acharia disso?

Na Praça da Revolução, o carro chamou a atenção dos locais e turistas. O que Che acharia disso?

Uma curiosidade sobre o evento é que a vinda da Audi teria causado também duas reações opostas na cúpula do governo local – e no seio da própria família Castro, no poder há quase 60 anos. Explica-se. Correu nos bastidores do evento que atual presidente cubano, Raúl Castro, seria um fervoroso fã da marca alemã. Houve quem dissesse até que isso teria sido determinante para que a Audi passasse na frente de outras marcas e fosse a primeira a rodar seus modelos em um lançamento no país recém aberto ao mundo.
Ocorre que seu irmão, Fidel Castro, o líder supremo – e aposentado – de Cuba, nunca escondeu sua predileção por outra montadora alemã: a Mercedes-Benz. Fidel tinha, inclusive, um sedã preto da Mercedes em sua frota e permitiu que a estrela de três pontas fosse a única montadora de carros independente a ter uma loja na ilha. Enfim, se é verdade ou lenda, fato é que ficou parecendo birra entre irmãos, não?
Agora a ilha está ‘aberta’ e tem tudo para retomar os tempos de glamour perdidos há seis décadas. É viver para ver.

Fabiano Mazzei é jornalista e diretor do site Business Luxo.